Não é nada fácil sair do lugar-comum em diversos aspectos da vida. A mesma vida que nos induz/cobra/exige profundidade. Respostas sólidas que, ainda que se desmanchem no ar, deixam um rastro de verdade. Ao me tornar cristão, tive que aprender como seria daquele momento em diante: olhar pra dentro e provar/testar/validar minhas ações, reações e, principalmente, intenções. O Profeta Jeremias ao se deparar com essas mesmas questões cunhou a famosa expressão “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? (Jeremias 17:9). Porém esta é mais uma daquelas expressões que pecam por uma interpretação descontextualizada pois, logo abaixo, no verso 10, vem a resposta: “Eu, o Senhor, esquadrinho o coração e provo os rins”; ou seja, a famosa pergunta do “enganoso coração” é retórica.

   Cientes deste fato, de que D-s conhece o coração, somos levados a procurarmos um grau maior de auto-análise, um grau mais concentrado de cuidado com esse dom que nos foi confiado e que chamamos vida!

   Os bons professores são aqueles que nos levam às perguntas corretas e não nos oferecem de pronto as respostas. Meu contato com a Bíblia, enquanto Palavra de D-s tem sido uma verdadeira relação aluno-professor/professor-aluno, dialógica mesmo. Vou com minhas questões e a Bíblia me leva a novas perguntas, quando não me responde com uma outra pergunta, ou um poema, ou uma verdade abismal.

   Estava um dia pensando sobre a condição comum a toda pessoa, de viver e às vezes sentir estar sendo pesada a tarefa de se realizar. Sabe aquela coisa: poutz, preciso ser feliz! Mas como fazer isso? Que trajetória eu tenho: Moisés, João Batista, os patriarcas e apóstolos? Mas todos eles sofreram constantemente, frustraram-se, abandonaram aquilo que dava-lhes prazer e tudo que hoje diríamos essencial para uma boa vida. Como sintonizar a felicidade desse mundo que sabemos ser ilusória mas nos parece legítima com a felicidade expressa em Provérbios 8:32 “porque bem-aventurados serão os que guardarem os meus caminhos.”? A resposta é complexa, e também linda!

   Estamos condicionados a pensar na felicidade como o prêmio dos vencedores, dos mais fortes, enfim daqueles que subjugam as circunstâncias e sujeitos em prol de sua realização. Porém, a ilusão dos heróis – da Grécia à Marvel – perde seu argumento no contato furioso da nossa existência. Nem sempre somos os mais fortes, nem sempre vencemos as circunstâncias e impomos a nossa convicção do que é certo e necessário à nossa felicidade. E, por vezes, o resultado é a frustração e o desânimo, ou a resignação quanto aos ideais de uma vida realizada serem apenas matéria de literatura e filme; isso quando não começamos a confundir os ideais de realização.

   Encontrei-me um tempo refletindo sobre essas coisas, e confesso, um pouco frustrado quanto ao meu grau “enforcement” em realizar a minha vida, e isso me angustiava. Fazia pouco que havia me tornado cristão. E como todo adventista do sétimo dia, meu repositório de respostas-questões me convidava a abri-lo, exato: a Bíblia. Abri então no livro de Neemias, capítulo 8. Em resumo: o povo tinha voltado da Babilônia e estava emocionado de haver voltado à Jerusalém. Era um Sábado. Neemias era o governador, Esdras o sacerdote. Ao Esdras ler livro da Lei de Moisés, contendo as palavras de D-s, e os mandamentos que o povo havia abandonado, ocorre uma choradeira geral. Vendo um dia de festividade se transformar em um fracasso retumbante, Esdras, Neemias e os levitas que estavam oficiando a cerimônia gritam para o povo:

“Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto não vos entristeçais; porque a alegria do Senhor é a vossa força.” (Neemias 8:10).

   Ok. Baita acontecimento. Fiquei imaginando a cena. Deve ter sido uma comoção incrível, uma baita solenidade. Mas o detalhe é como D-s respondeu a minha pergunta-angústia. Lembram: como raios ser feliz? ainda: como ser feliz quando as circunstâncias são mais fortes do que nós?!

   E então ecoou na minha mente: Porque a alegria do Senhor é a vossa força. Porque a alegria do Senhor é a minha força. Porque a alegria do Senhor é a sua força! Uau! Sabe o que vejo de genial e lindo nisso? Que D-s inverte a lógica das coisas. Estamos condicionados a pensar que para sermos felizes, realizarmos-nos e termos sucesso na vida, precisamos ser mais fortes, mais isso ou mais aquilo. D-s apenas diz: sejam mais felizes, e então, vocês serão mais fortes, mas sejam felizes na minha alegria, e a minha alegria é salvação. Voilá!

   Sai deste verso e fui a algumas bem aventuranças. Descobri o que é a felicidade e como ser realizado. Descobri que isso é uma tarefa contínua, mas a única tarefa em que o prêmio é dado como suporte para alcançar o prêmio continuamente, eternamente. D-s, na nossa busca pela felicidade, dá o troféu antes da chegada! E mais, D-s não nos coloca em competição com ninguém, nestes 100 metros nada-rasos, há espaços infinitesimais. D-s, ao contrário, faz-nos desejar uma vitória que leva a outra muito maior. Essa é a graça! Isso é a graça!

Para não me alongar em metáforas intermináveis, queria reiterar que a descoberta de um modo concentrado e profundo de ser, SER de fato, passa pela determinação em ir ao fundo. É preciso treinarmos nossos olhos para enxergar por dentro, de nós mesmos e das coisas, enxergarmos os motivos e intenções, a fim de perdoarmos as fraquezas e imperfeições alheias e dominarmos as nossas, precisamos nos rebelar quanto à superficialidade induzida do mundo, e nos construirmos fora desse absurdo para devolver ao absurdo o sentido que ele tanto busca, precisamos cultivar o silêncio, a convicção, o caráter, o exercício teimoso do que é certo; precisamos permitir que D-s bagunce esse mundo de obviedades com o absurdo do amor. Tudo isso é preciso.

(Provérbios 14:21, Salmos 84:4, Salmos 84:12, Salmos 94:12)

 


Danilo

Danilo: Conheceu a verdade e hoje sente-se nascido, a todo momento, para a eterna novidade da vida