Próximo final-de-semana teremos ENEM. Não sei qual é tua primeira ideia sobre a prova. Sei que ao pensar nela tenho sensações de claustrofobia, em dois dias de provas estafantes, numa época de ano cuja sensação térmica é a de um posto de combustível. Tem também aquela pressão de tirar nota boa, não é mesmo? Treinaste redação? Lembrei-me que no ano passado cerca de meio milhão de candidatos a zeraram. É sabatista? Vixe! Qual vai ser teu kit de sobrevivência no confinamento? É duro ficar sentado horas ali! E aí, qual vai ser tua estratégia para sair dessa maratona vivo?
Eu me fiz várias perguntas como estas no ano passado, dias antes o exame. Não me preparei de maneira adequada. Fazia curso técnico, um freelance para ter algum troco, tinha abandonado a faculdade de administração e estava tratando problemas de ordem emocional que afetam meu desempenho físico e mental. A despeito disso, tracei um plano e listei ações para resistir e entregar o que tinha para obter o melhor resultado possível.

   À época eu pensava muito no povo hebreu que, ao chegar próximo da Terra Prometida, começou a reclamar de toda sua sorte obtida até ali. Lamuriaram tanto, que Deus decidiu pela permanência deles no deserto, onde se acomodaram até a morte. Apenas seus filhos, Calebe e Josué se beneficiaram da promessa divina. Concluí que reclamar das condições de vida e das condições de prova para um sabatista era inútil e infrutífero, o que me trouxe um pouco de contentamento e tranquilidade. Afinal de contas, é um exame cansativo para qualquer candidato, pois os outros fatores pressionam consideravelmente. Do portão para dentro, no confinamento, recebemos as recomendações de permanecermos em silêncio, em posição de prova, sem fazer uso de colchonetes, almofadas e outros utensílios para conforto. Estava ciente do desconforto que viria com o passar das horas Comecei um silêncio de monge tibetano que duraria até às 23:00. Definitivamente estava decidido me preservar e só para a prova. Deu certo.

   No dia seguinte levantei-me às 10:00, tomei desjejum e fui caminhando até o local da prova à 3,5km da minha casa. Definitivamente eu precisava arejar a cabeça. Esperei os minutos finais para entrar na sala e acabei fazendo a prova sem grandes percalços e com a boca fechada.

   À partir dali, já tinha lucrado por suportar sala fechada, não ter qualquer crise de ansiedade e por ficar sereno por dois dias seguidos. Mas tudo começou com uma mudança de postura perante o problema. Ao invés de praguejar, me contive. Ao invés de agitar-me, aquietei.

   À exemplo de Cristo também passamos por situações de afligir a alma e fustigar o corpo. Mas Cristo sempre se fez um com o Pai, o que o manteve direcionado para sua missão a 100% do tempo, até sua morte vitoriosa na cruz. E sem praguejar! Como ovelha muda Ele foi para o matadouro, o que me faz pensar que, por menos, posso me calar também, ter um espírito mais sereno e confiante.

   No final das contas, creio que mais por misericórdia divina, tive uma nota que garantiu uma vaga na faculdade para cursar arquitetura. Espero mesmo que tenhas um desempenho superior ao meu ou que ao menos aprenda a se libertar dos anseios deste mundinho mais ou menos. Torcerei por ti. Fica com Deus, sossegado e boa prova!


pittaAutor: Gabriel Weder

Quase arquiteto, quase designer e quase nada.